Aula magna com Letícia Sabatella e Paulo Braga abre o ano letivo no Conservatório de Tatuí

Foto: Paulo Rogério Ribeiro

No último dia 23 de fevereiro, o palco do Teatro Procópio Ferreira se transformou em um espaço de troca artística e sensibilidade, marcado pela presença de diferentes experiências musicais e pela forte conexão com o público.

A aula magna que abriu o ano letivo do Conservatório de Tatuí — considerado a maior escola de música e artes cênicas da América Latina, vinculado à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e gerido pela Sustenidos Organização Social de Cultura — reuniu a atriz e cantora Letícia Sabatella e o pianista Paulo Braga em uma apresentação que foi, ao mesmo tempo, espetáculo, conversa e inspiração para os estudantes que iniciam sua jornada na música em 2026.

“Acho encantador estar aqui, neste encontro, em uma escola de música, com pessoas que tiveram a oportunidade e escolheram essa trajetória. Eu já as admiro por essa decisão e sei a importância desse caminho, então quero que elas se sintam valorizadas por isso”, afirma Letícia Sabatella

Para Paulo Braga, o retorno ao Conservatório tem um peso afetivo e simbólico. Fundador do Núcleo de Música Popular da instituição, ele relembrou sua própria formação no equipamento cultural, iniciada ainda na infância, quando viajava semanalmente de Jundiaí para estudar. Paulo toca piano desde os 6 anos e iniciou os estudos no Conservatório de Tatuí aos 11.

“Posso dizer que eu cresci aqui e me desenvolvi nessa escola. Viver esse mundo musical que é o Conservatório de Tatuí amplia muito os horizontes, principalmente para quem está começando na música, independentemente da idade. Quando a pessoa chega aqui, vê possibilidades que normalmente não teria na própria cidade ou no convívio cotidiano. Você chega e tem banda, orquestra, hoje em dia tem até escola de samba tocando. São muitos cursos, muitas possibilidades — da música antiga à contemporânea, da clássica à popular”.

Ao compartilhar histórias de construção artística, Letícia Sabatella e Paulo Braga mostram que a arte nasce da escuta, da experimentação e da persistência, valores que seguem no centro da formação oferecida pelo Conservatório de Tatuí.

“A mensagem que deixo para os alunos neste início de ano é que vejam este momento como uma tela em branco. É a hora de desenvolver muita coisa. Vocês vão receber muita informação, mas o importante é começar a construir os próprios trabalhos e pensar a médio e longo prazo: ‘o que eu posso fazer aqui dentro?’. Um amigo me deu um conselho uma vez, dizendo que essa seria a melhor época da minha vida e que eu deveria aproveitar. Esse oxigênio que rola aqui — aproveitem, respirem e curtam o máximo possível. No meu caso, muito do que eu faço hoje ainda é reflexo do que estudei no Conservatório”, sugere Paulo Braga.

Letícia pediu para complementar a fala do Paulo afirmando que “se, por um acaso, ainda não for a melhor fase da vida do aluno e estiver difícil, o segredo é insistir, porque depois melhora”. Ela revela que quando iniciou a faculdade de teatro, não se sentia uma boa atriz. Tinha dificuldade de projetar a voz e relembra que nem todo mundo socializa fácil, cada pessoa tem processos diferentes. O segredo é insistir, porque um dia você vai olhar para trás e pensar: ‘Nossa, agora eu consigo, e era tão difícil naquela época’.

O show no Teatro Procópio Ferreira

Em um formato de voz e piano, Letícia Sabatella e Paulo Braga seguiram com a essência do grupo Caravana Tonteria, tendo a improvisação e a interpretação livre como marcas da dupla.

Durante a apresentação, os artistas trouxeram cenas do trabalho que já desenvolvem em parceria, organizadas em blocos temáticos. Paulo Braga explica que o repertório incluiu uma homenagem a grandes mulheres cantoras e compositoras, além de celebrar o Clube da Esquina, movimento fundamental para a música brasileira. O espetáculo abriu espaço, ainda, para composições autorais de Letícia. Segundo a artista, o show funciona como um apanhado geral que revela as diversas facetas e a maturidade desse projeto que a dupla vem construindo ao longo do tempo.

Natural de Belo Horizonte, mas criada em Curitiba, Sabattella se tornou uma das maiores atrizes do Brasil. Já o cartão de visitas como cantora aconteceu após ela participar do disco de Elza Soares, do Cóccix até o Pescoço (2002). A convite da própria Elza, Letícia gravou a música “A Cigarra”.

“A Elza sempre foi uma referência para mim e foi muito generosa durante a gravação da canção. Depois que finalizamos a música, ela ficou me estimulando a ser cantora, então foi uma madrinha para mim”, revela.

O match com Paulo Braga

Letícia revela que o desejo de realizar um trabalho musical surgiu em um período de ritmo intenso na televisão, durante as gravações da novela Caminho das Índias. Com a alta demanda e o pouco tempo para descanso — já que, ao chegar em casa, ainda precisava estudar os roteiros —, a música surgiu como um refúgio. Ela conta que as pequenas ideias musicais começaram a aparecer naturalmente durante as gravações, funcionando como uma espécie de escapismo e uma forma de o cérebro relaxar em meio à rotina exaustiva.

A composição começou, então, de forma intuitiva, sem planejamento: a primeira música que Letícia criou foi um tango, seguida por ideias que soavam como jazz, sem relação com seus estudos musicais. Nesse período, ao conversar com o músico Carlos Careca, manifestou o desejo de unir teatro e música em um formato de cabaré. Ele a convidou para integrar um projeto que já desenvolvia nesse estilo.

Durante os ensaios, ela conheceu o pianista Paulo Braga, que acompanhava todas as músicas. No espetáculo, Letícia cantou canções de Noel Rosa, o tango “Tonteria” e outras composições, além de sugerir a inclusão de “Geni”, música que ajudou a reforçar o caráter de cabaré inspirado no dramaturgo Brecht — proposta que acabou sendo incorporada ao show.

“Eu comecei a cantar e o Paulo passou a me acompanhar de um jeito muito livre, quase como se estivesse trilhando uma cena. Ficou algo muito bonito, porque havia uma liberdade enorme de interpretação; eu não estava presa a uma métrica exata ou à melodia original e podia interpretar como teatro. Dali surgiram coisas muito espontâneas e, quando sugeri ao Paulo combinarmos o que eu faria, ele apenas disse: ‘Vai fazendo, deixa que eu vou junto’. Essa parceria virou quase uma operação entre nós dois e foi nesse formato que nos encontramos, especialmente na versão de ‘Geni’, do Chico Buarque. Se não fosse o Paulo tocando daquela maneira, eu nunca teria conseguido brincar do jeito que aconteceu. ‘Geni’ é uma música genial, imortal e já é teatral por natureza, mas foi muito especial o nosso ‘tempero’ e o jeito como ela ressurgiu naquele momento, permitindo que a canção aparecesse de uma forma que as pessoas ainda não tinham visto”, destaca Letícia Sabatella.

Complementando essa visão, Paulo Braga destaca a liberdade e o prazer de criar as trilhas sonoras que acompanham as interpretações de Letícia. Para o músico, a artista une com maestria suas habilidades como cantora e atriz, conferindo ao texto uma importância única. Paulo revela que o processo de musicar a história de Geni em tempo real, funcionando como uma trilha para a narrativa de Letícia, é uma experiência libertadora e extremamente divertida.

Letícia explica que, por se tratar de uma interpretação livre que une música e teatro, a dupla estabeleceu uma estrutura que permite que cada performance seja única. Além de Geni, outras canções do repertório, como Retrato em Branco e Preto, surgiram dessas experimentações em que o teatro e a música se misturam de forma lúdica. Para a artista, essa característica torna a passagem pelo Conservatório de Tatuí ainda mais significativa, por ser uma instituição que fomenta o diálogo entre as duas linguagens, unindo formação musical e artes cênicas.