A música tem o poder de encurtar distâncias e transformar realidades. A trajetória de Leusio Gil, pianista moçambicano, ex-MOVE e atual aluno do Conservatório de Tatuí, é a prova viva de como o intercâmbio cultural e a educação musical geram impactos que ultrapassam as fronteiras do palco.
Raízes Moçambicanas e o Encontro com o Jazz
Nascido em Maputo, Leusio cresceu imerso na sonoridade tradicional de Moçambique e de vizinhos como África do Sul e Malawi. Na faculdade, sua curiosidade o levou a pesquisar profundamente suas raízes, mas foi na academia Music Crossroads que sua identidade começou a ganhar novas camadas através do jazz.
“Eu decidi explorar aquilo que eu já sabia sobre a música tradicional com aquilo que eu estava aprendendo na academia. Achei que isso seria uma junção perfeita”, relembra o artista, que cita nomes como Moreira Chonguiça e Assa Matusse como influências dessa fusão.
A Travessia e o Choque Cultural
O destino de Leusio cruzou com o da Sustenidos através do MOVE (Musicians and Organizers Volunteer Exchange), um programa de intercâmbio que conecta músicos do Brasil, Malawi e Noruega. Inicialmente, o Brasil era uma terra de expectativas pautadas pelo que chegava via rádio e TV em Moçambique: samba e pagode.
“Eu fiquei na expectativa de chegar no Brasil e escutar um samba no supermercado”, diverte-se Leusio. Ao chegar, o choque foi positivo: ele descobriu a pisadinha, o forró e uma riqueza rítmica que superava qualquer imaginação. A paixão foi imediata: em uma semana, ele já sabia que queria morar aqui.
O Músico Além do Entretenimento
Mais do que novos ritmos, o MOVE ofereceu a Leusio uma nova visão sobre sua própria profissão. Ao participar de projetos em comunidades brasileiras, ele entendeu que a música não vive apenas do aplauso no palco, mas da transformação social.
“Eu não conhecia a parte social do músico. O papel do músico é levar cultura e arte para pessoas que não têm esse acesso. A importância da arte não tem a ver só com entretenimento, mas também com acolher e educar”, afirma.
Excelência no Conservatório de Tatuí
Atualmente, Leusio estuda piano popular brasileiro no Conservatório de Tatuí, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerida pela Sustenidos, e reconhecida pela sua excelência. Para ele, a experiência tem sido reveladora: ele descobriu que as técnicas pianísticas brasileiras podem ser aplicadas para solar músicas tradicionais de seu país, algo raro em Moçambique.
O desafio agora é técnico e sensível: transpor a complexa “polirritmia” moçambicana para o piano popular brasileiro. “É muito complexo para nós. Tenho aprendido técnicas que aplico não só nas músicas populares do meu país, mas também nas minhas próprias composições”, explica.
Um Legado de Cura para o Mundo
Para Leusio, o legado de um artista deve ser a transformação do ouvinte. Ele acredita na música como ferramenta de cura para ansiedade e depressão, e como um espaço de amor e acolhimento.
Com os olhos no futuro, o pianista projeta levar sua arte para o cenário global, não apenas para consolidar sua carreira, mas para colocar Moçambique no mapa cultural mundial. “Às vezes, quando eu falo que sou de Moçambique, a pessoa pergunta onde fica. Isso mexeu comigo. Eu tenho que fazer o meu país ser conhecido e levar a minha arte para frente”.
A história de Leusio Gil é um dos nossos Casos de Legado que exemplificam a missão da Sustenidos: promover o desenvolvimento humano através da música e da cooperação internacional.
